A perda do mandato do ex-deputado estadual Roberto Razuk Filho, o Neno Razuk (PL), deve ampliar os desdobramentos jurídicos envolvendo a Operação Successione, investigação do Gaeco que apura a atuação de uma suposta organização criminosa ligada à exploração do jogo do bicho e de máquinas caça-níqueis em Mato Grosso do Sul.
Com a saída da Assembleia Legislativa de Mato Grosso do Sul (Alems), oficializada após a retotalização dos votos das eleições de 2022 pelo TRE-MS, o ex-parlamentar deixa de ter prerrogativas institucionais relacionadas ao cargo, incluindo discussões sobre eventual foro privilegiado.
Embora o cenário político tenha mudado, a perda da cadeira não implica prisão automática. Neno já foi condenado em primeira instância a 15 anos, 7 meses e 15 dias de prisão pelos crimes de organização criminosa armada, roubo majorado e exploração de jogos ilegais, mas segue recorrendo em liberdade. Conforme entendimento atual do Supremo Tribunal Federal (STF), a execução da pena ocorre somente após o encerramento definitivo dos recursos judiciais.
Os processos ligados à Operação Successione já tramitavam na primeira instância. Em decisões anteriores, o juiz José Henrique Kaster Franco, da 4ª Vara Criminal de Campo Grande, entendeu que os fatos investigados não tinham relação direta com o exercício do mandato parlamentar, motivo pelo qual manteve os autos na Justiça comum.
Retotalização alterou composição da Alems
A mudança na composição da Assembleia ocorreu após decisão do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que anulou os votos do ex-deputado federal Loester Carlos Gomes de Souza e de Raquelle Lisboa Alves Souza, condenados por irregularidades envolvendo recursos do fundo eleitoral nas eleições de 2022.
Com a nova contagem dos votos proporcionais, o PL perdeu uma cadeira na Assembleia Legislativa, permitindo a entrada de João César Mattogrosso, ligado ao PSDB.
Operação apura estrutura ligada ao jogo ilegal
Segundo o Ministério Público de Mato Grosso do Sul, a Operação Successione investiga um grupo suspeito de controlar atividades relacionadas ao jogo do bicho e à exploração de máquinas caça-níqueis em Campo Grande, além de disputas por território após o enfraquecimento de grupos investigados na Operação Omertà.
De acordo com a denúncia, assessores vinculados ao gabinete de Neno Razuk teriam participado das atividades investigadas enquanto ocupavam cargos públicos. O MPMS também aponta que estruturas ligadas ao mandato teriam sido utilizadas para monitoramento de rivais e apoio às ações do grupo.
Além do ex-deputado, outros investigados — incluindo policiais militares — também foram condenados em primeira instância. Conforme a acusação, parte dos envolvidos teria utilizado a estrutura policial para intimidar concorrentes e ampliar o domínio sobre pontos de exploração do jogo ilegal.
Família Razuk também aparece nas investigações
As investigações alcançam ainda integrantes da família Razuk. Conforme denúncia apresentada pelo Gaeco na quarta fase da Operação Successione, mensagens e áudios obtidos durante as apurações indicariam discussões relacionadas a possíveis ações contra grupos rivais.
Entre os citados estão o ex-deputado estadual Roberto Razuk, pai de Neno, além dos irmãos Jorge Razuk Neto e Rafael Godoy Razuk. O advogado Rhiad Abdulahad também aparece entre os investigados apontados pelo Ministério Público.
Recentemente, a Justiça manteve prisões preventivas de parte dos investigados, incluindo os irmãos de Neno. Já Roberto Razuk obteve o benefício da prisão domiciliar devido à idade avançada e questões de saúde.
A próxima audiência do processo está marcada para o dia 27 de maio de 2026, quando serão ouvidas testemunhas indicadas pelo Ministério Público.
Em notas divulgadas anteriormente, a defesa da família Razuk negou envolvimento com organização criminosa, roubos ou planejamento de ataques contra rivais. Os advogados afirmam que as acusações são baseadas em interpretações equivocadas de diálogos extraídos da investigação e sustentam que irão comprovar a inocência dos envolvidos durante o andamento do processo.