A região considerada um dos maiores corredores do crime organizado no país não se estruturou por falta de polícia, mas por excesso de vazios. No Pantanal sul-mato-grossense, onde aeronaves voam baixo e escapam do radar, mais de 200 aeródromos, muitos clandestinos, formam uma malha invisível que sustenta a logística aérea do tráfico. É ali, segundo pesquisadores da UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul), que se revela o coração de um fracasso mais profundo: a incapacidade do Estado brasileiro de governar sua própria fronteira.
“A nossa suspeita é que o maior veículo de transporte de drogas e armas não é terrestre, é aéreo”, afirmou ao Campo Grande News o geógrafo Edgar Aparecido da Costa, coordenador do PDIF (Plano de Desenvolvimento e Integração da Faixa de Fronteira do Centro-Oeste), elaborado por pesquisadores da UFMS e da UFMT (Universidade Federal de Mato Grosso). “No Pantanal, as aeronaves passam por baixo do radar.” Ou seja, a fronteira tem tantos buracos quanto um queijo suíço.
Em um território plano, com baixa vigilância aérea e milhares de quilômetros de fronteira fluvial e terrestre, a repressão ostensiva se tornou previsível — e ineficaz.
“Eu informo para o bandido que vou fazer a operação. Quero acreditar que ele vai continuar passando por ali”, diz Costa, ao criticar ações previamente anunciadas do Exército como a Operação Ágata. “Sem inteligência e cooperação, vamos continuar enxugando gelo.”
A fronteira como infraestrutura do crime
O diagnóstico do PDIF, encomendado oficialmente pelo governo federal, revela que o problema central da fronteira sul-mato-grossense não é apenas a ousadia das facções, mas a fragilidade estrutural do Estado.
Somente em Mato Grosso do Sul, 45 municípios integram a faixa de fronteira constitucional — uma área de mais de 142 mil quilômetros quadrados, sob legislação especial de segurança nacional. Somados aos municípios de Mato Grosso incluídos no estudo, são cerca de 2.354 quilômetros de limite internacional com Paraguai e Bolívia.
Mas, na prática, o que deveria ser território estratégico opera como periferia administrativa.
O próprio plano reconhece que os estados “padecem de informações sobre a região” e que as políticas públicas são travadas por entraves legais, diplomáticos e, sobretudo, pela falta de articulação com o centro decisório em Brasília. No momento da elaboração do estudo, os Núcleos Estaduais de Fronteira , instâncias criadas para coordenar ações federais, estaduais e municipais ,estavam desativados.
Sem governança contínua e de cooperação pífia com os países vizinhos, a fronteira passou a ser administrada por operações episódicas.
Esse vazio se agrava nas chamadas cidades-gêmeas, onde a fronteira física se dissolve no tecido urbano: Ponta Porã e Pedro Juan Caballero, Corumbá e Puerto Quijarro, Mundo Novo e Salto de Guairá, Porto Murtinho e Carmelo Peralta. Nessas conurbações binacionais, a circulação cotidiana transforma a fronteira em infraestrutura logística.
“As fronteiras são dinâmicas, ora alargam, ora retraem”, registra o relatório. As fragilidades mais concretas dessa porosidade foram mapeadas em outro estudo realizado em 2012, intitulado Gestão da Segurança Pública na Fronteira Brasil–Bolívia em Corumbá-MS, de autoria de Edgar Aparecido da Costa, do agente federal Mérces Dias Junior e da advogada Quelim Daiane Crivelatti, em pesquisa desenvolvida na UFMS, Campus do Pantanal. Embora os dados tenham mais de uma década, os pontos críticos permanecem estruturalmente ativos.
O levantamento identificou mais de 150 travessias informais — estradas vicinais, trilhas e “cabriteiras” que permitem passagem quase contínua entre Brasil e Bolívia. Alguns desses locais ficam próximos a postos que ganharam nome próprio no cotidiano da fronteira, como Lampião Aceso e Buraco das Piranhas, onde a linha internacional simplesmente desaparece no terreno.
O estudo mostra que a resposta estatal frequentemente agrava o problema. Em Lampião Aceso, passageiros são retirados de ônibus, colocados em fila, revistados com cães farejadores e retidos por mais de uma hora em abordagens generalistas, feitas sem uso prévio de inteligência. O efeito é constrangimento sistemático da população local e baixo impacto estrutural. Hoje, o bloqueio é feito de forma concentrada no Posto Esdras, em Corumbá.
A fragilidade se estende ao rio e ao ar. Mapeamentos oficiais listam dezenas de pontos fluviais com fiscalização precária ao longo do Rio Paraguai e indicam a existência de numerosas pistas improvisadas, que surgem e desaparecem com o ciclo das cheias do Pantanal. Sem estrutura permanente, a fronteira permanece aberta por baixo, pelos lados, e por cima.
Segurança como efeito, não como causa
A tese central do PDIF inverte a lógica dominante do debate: a insegurança não é a origem do problema, mas seu sintoma mais visível.
“As operações têm baixo efeito duradouro, custo elevado e acabam criminalizando o território”, afirma Costa. “A repressão atua sobre os sintomas, enquanto o vazio institucional permanece intacto.”
Os próprios dados confirmam que as grandes apreensões recentes resultam de inteligência e denúncias, não de operações midiáticas. “As grandes prisões foram obtidas por meio de inteligência”, diz o pesquisador.
Mesmo onde a criminalidade é estruturada, o padrão de violência revela uma lógica de controle territorial. “As mortes acontecem muito entre os próprios criminosos, não com a sociedade”, afirma. “São cidades seguras para viver, apesar da criminalidade organizada.” O problema, portanto, não é apenas policial. É territorial.